Resiliência de Negócios: 3 Pontos Cegos dos Líderes Financeiros
- Waldemir Queiroz
- há 6 dias
- 4 min de leitura

Você gerencia os números da sua empresa com rigor. Controla custos, acompanha fluxo de caixa, negocia com bancos e fornecedores. Mas quando o assunto é proteção do capital — seguros, gestão de riscos e continuidade de negócios — é provável que você tome decisões baseadas em informações que nunca foram realmente questionadas.
Isso não é culpa sua.
O mercado segurador opera com linguagem técnica, processos pouco transparentes e incentivos que nem sempre refletem a realidade operacional das empresas. E os corretores, mesmo bem-intencionados, raramente têm o tempo — ou o mandato — para entender sua operação em profundidade.
Ao longo de mais de 35 anos atuando dentro de operações industriais complexas — terminais, plantas químicas, mineração — observei três padrões recorrentes. Três pontos cegos que colocam empresas sólidas em risco sem que seus líderes financeiros percebam.
A boa notícia: alguns líderes decidiram enxergar antes de pagar o preço.
Ponto Cego #1: Você está pagando por um rótulo que não é o seu
O mercado segurador classifica empresas por setor. O problema é que essa classificação, muitas vezes, não representa a operação real.
A decisão de Ricardo
Ricardo era diretor financeiro de uma empresa industrial com operações em cinco estados. Ano após ano, enfrentava o mesmo cenário: prêmios elevados, coberturas restritas e seguradoras relutantes em renovar o risco.
O motivo? A empresa era classificada como "fundição" — um segmento historicamente associado a alta severidade de perdas. Na prática, a fundição representava apenas uma pequena fração do negócio. A maior parte da operação era usinagem e montagem, com perfil de risco significativamente menor.
Ricardo poderia ter aceitado isso como "realidade do mercado". Não aceitou.
Decidiu ir além dos relatórios. Autorizou uma análise técnica presencial em todas as cinco unidades — algo que nenhum corretor havia proposto e nenhuma seguradora havia exigido. Queria dados reais, não rótulos herdados.
O resultado: com a documentação técnica em mãos, seguradoras que antes recusavam o risco passaram a aceitá-lo — sem aumento de custo. Ricardo não mudou de seguradora. Mudou a forma como sua empresa era compreendida pelo mercado.
O padrão: Sua empresa pode estar pagando por uma classificação que não reflete sua realidade operacional. A diferença está em quem decide questionar — e em quem simplesmente aceita.
Ponto Cego #2: "Seu seguro protege o que é fácil de medir, não o que é vital"
Apólices são estruturadas em torno do que é simples de quantificar: valor de ativos, faturamento histórico, folha de pagamento. Os eventos que realmente ameaçam a continuidade do negócio, porém, raramente cabem nessas planilhas.
A decisão de Fernanda
Fernanda assumiu a diretoria financeira de uma empresa de logística em forte crescimento. Na primeira renovação de seguro, fez o que qualquer gestor faria: pediu ao corretor um objetivo claro — reduzir o prêmio.
O corretor entregou. Prêmio menor, sensação de eficiência.
Mas Fernanda tinha uma inquietação. Antes de assinar, pediu uma segunda opinião. Não sobre preço — sobre adequação.
O que descobriu a preocupou: a cobertura de Lucros Cessantes estava limitada a 12 meses — "padrão de mercado". O problema é que sua operação dependia de equipamentos importados, com lead times entre 18 e 24 meses. Um sinistro relevante significaria **até um ano inteiro de operação sem cobertura**.
Fernanda poderia ter assinado e comemorado a economia. Em vez disso, exigiu que a cobertura fosse redesenhada com base na operação real, não no padrão do mercado. O prêmio permaneceu praticamente o mesmo. A proteção, não.
O padrão: Muitos seguros são calibrados para métricas contábeis, não para o tempo real de recuperação do negócio. A diferença está em quem pergunta "isso me protege de verdade?" antes de assinar.
Ponto Cego #3: "Você não sabe o que não sabe — e ninguém está olhando"
Este é o mais perigoso. Não envolve erro técnico nem desenho inadequado de apólice. Envolve **ausência de olhar crítico**.
A decisão de Marcos
Marcos era gestor de um terminal de armazenagem bem estruturado. Seguros em dia, histórico limpo de sinistros. Tudo aparentemente sob controle.
Ainda assim, algo o incomodava — uma intuição de que havia vulnerabilidades que ele não conseguia nomear.
Em vez de ignorar essa intuição, Marcos agiu. Abriu a operação para um olhar externo, sem agenda de venda. O pedido foi direto: "Não quero que você me venda nada. Quero que me mostre o que eu não sei."
O que emergiu da análise não aparecia em nenhum relatório anterior: uma configuração específica de tanques que, sob determinadas condições, poderia evoluir para um incêndio de grandes proporções.
A solução não exigiu investimento. Uma simples restrição operacional — limitar determinados produtos em tanques mais expostos — reduziu a exposição ao cenário crítico em 40%. Custo direto: zero.
Marcos decidiu descobrir antes, não depois do sinistro.
O padrão: Os riscos mais severos raramente estão onde todos estão olhando. A diferença está em quem tem a coragem de perguntar "o que eu não estou vendo?" — e a disciplina de buscar a resposta.
Conclusão
Ricardo, Fernanda e Marcos têm algo em comum: decidiram ver antes de precisar pagar para aprender.
Não esperaram o sinistro. Não aceitaram o "padrão de mercado" como resposta final. Não confundiram ter seguro com estar protegido.
Esses três pontos cegos — classificação inadequada, cobertura mal dimensionada e riscos invisíveis — não aparecem nos relatórios que chegam à sua mesa. Não estão nas propostas de seguro. Não surgem nas reuniões de renovação.
Eles só se tornam visíveis quando alguém decide olhar.
Se alguma dessas histórias soa familiar — ou se você carrega aquela intuição incômoda de que "algo não fecha" — a pergunta é simples: você vai esperar para descobrir, ou vai decidir ver agora?
Uma conversa pode ser o primeiro passo. Não para vender uma apólice, mas para esclarecer o que pode estar invisível hoje e custar caro amanhã.
Waldemir Queiroz é fundador da Resilience Guardians. Com mais de 35 anos de experiência em operações industriais de alta complexidade, apoia líderes financeiros a revelarem riscos invisíveis e garantirem a real continuidade de seus negócios.




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