Risco não é um problema de seguro. É um problema de alocação de capital. 1
- Waldemir Queiroz
- há 6 dias
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O cenário comum na direção financeira
O processo inicia-se com o e-mail do corretor. Assunto: Renovação.
São 47 páginas de tecnicidades, mas o foco invariavelmente recai sobre o prêmio. O ritual é padrão: compara-se o valor com o ano anterior, busca-se um saving de 5% a 8% e formaliza-se a assinatura. Segue a pauta.
Essa rotina burocrática, repetida anualmente em milhares de corporações, esconde uma vulnerabilidade crítica para o balanço.
A ótica equivocada
Diante da renovação, a indagação padrão é:
"Qual é o custo desta apólice?"
Esta é uma visão de procurement, focada estritamente na despesa orçamentária.
Porém, sua função transcende compras. Como guardião do capital, a pergunta estratégica deve ser:
"Qual é a exposição real do meu capital — e qual a efetividade da cobertura contratada?"
A ilusão da blindagem
Seguro não é panaceia; é um mecanismo de transferência parcial de risco financeiro.
Enfatizo: parcial. Existem limites, condições contratuais, exclusões e franquias.
Possuir uma apólice não é sinônimo de blindagem patrimonial. Significa possuir um instrumento jurídico que, mediante condições específicas, reembolsará uma fração do prejuízo.
O que não está contabilizado no contrato?
O downtime real de recuperação — o período de semanas ou meses que excede as previsões técnicas
Perda de licenças — ambientais e operacionais, com prazos de revalidação imprevisíveis
Contratos cancelados — clientes que não aguardam e não retornam
Erosão reputacional — difícil de mensurar, impossível de segurar
Multas regulatórias acumuladas — que se agravam ao longo do evento
Nenhum desses itens aparece na comparação de prêmio contra o exercício anterior.
A reorientação estratégica
CFOs de alta performance abandonaram a prática de tratar o seguro como ponto de partida.
Eles começam pelo capital.
Quanto capital está efetivamente exposto?
Qual é o cenário de perda máxima realista — não teórica?
Quanto tempo a operação levaria para voltar a gerar caixa?
Qual é a capacidade da empresa de absorver perdas antes de acionar o seguro?
Quando essas perguntas são respondidas com rigor, o seguro deixa de ser uma compra anual e passa a ser uma decisão estratégica de alocação de capital.
Seguro é consequência de uma estratégia de proteção de capital.
Não o contrário.
A responsabilidade fiduciária do CFO
Nenhum outro executivo na organização detém essa visão integrada.
O gestor de seguros conhece as apólices.
A operação conhece os riscos técnicos.
O jurídico conhece os contratos.
Mas nenhum deles conecta tudo.
O CFO é o único executivo capaz de traduzir risco operacional em impacto financeiro. De transformar cenários técnicos em linguagem de capital. De responder ao conselho com números que sustentam decisões de investimento — não com pilhas de laudos.
Proteção de capital não é função do corretor. É função do CFO.
O corretor comercializa apólices. Você protege o patrimônio.
Um caso que ilustra
Um terminal de líquidos no Brasil operava com cobertura de R$ 80 milhões. O foco da renovação anual era, como de praxe, a redução do prêmio.
Quando o CFO solicitou uma análise independente, o diagnóstico foi outro: a exposição real — considerando tempo de recuperação, perda de contratos e multas regulatórias — era de R$ 140 milhões.
Um gap invisível de R$ 60 milhões.
Mais relevante ainda: uma mudança operacional simples — a restrição de produtos mais voláteis em determinados tanques — reduziu a exposição catastrófica em cerca de 40%.
Custo: praticamente zero.
Não foi o corretor que identificou essa oportunidade. Foi uma análise que começou pelo capital — não pela apólice.
A próxima renovação
Antes de abrir o próximo e-mail do corretor, considere três perguntas:
1. Qual é o cenário de perda máxima realista da minha operação?
2. Quanto do meu capital está realmente coberto — na prática, não apenas no contrato?
3. O que posso fazer para reduzir a exposição antes de transferir o risco?
Se essas respostas não estiverem claras, talvez você esteja negociando o prêmio de uma proteção que não compreende totalmente.
E isso não é um problema de seguro.
É um problema de alocação de capital.
Waldemir Queiroz
Resilience Guardians
35 anos revelando o invisível em operações industriais




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